Tem estreia no ar. O Recivil Cultural renasce para mostrar que, por trás de cada registrador e registradora, existe um universo de talentos, paixões e histórias que vão muito além do balcão. E começamos com uma trajetória que é, ao mesmo tempo, sensível, potente e inspiradora: a da Oficial de Registro Civil de Paraguaçu/MG Suellen Vilas Boas.
Oficiala desde 2012, Suellen sempre lidou com histórias. Casamentos, nascimentos, mudanças de nome, recomeços. Mas, há quase três anos, ela decidiu escrever as próprias reflexões e ajudar outras mulheres a fazerem o mesmo.
A Suellen além do cartório
Se no cartório ela registra histórias, fora dele ela cria espaços para que elas sejam compartilhadas. Apaixonada pela leitura e pelas transformações que as palavras podem gerar, Suellen fundou, ao lado da amiga Raquel Colani Barbosa Rocha, o clube de leitura “Entre Páginas Vinhos”.
E aqui, o nome não é detalhe. Nos encontros, elas harmonizam vinho com livro. Cada obra escolhida dialoga com um rótulo específico. A proposta é que a experiência seja completa, literária, sensorial e afetiva. Um momento de pausa na rotina para ler, conversar, refletir e brindar.
O clube nasceu da vontade de criar um espaço seguro e acolhedor para mulheres. Hoje, é um verdadeiro refúgio. Um lugar onde literatura, cultura, amizade e apoio mútuo se encontram.
“Quando abrimos espaço para partilhar a leitura, tocamos o que é do outro e, de algum modo, isso também nos toca. Entre páginas e conversas, encontramos voz, escuta e um novo olhar sobre a vida”, disse Jamille Grimaldi, que participa do clube.
Quando a escrita virou necessidade
A escrita surgiu quase como um transbordamento. As conversas profundas no clube, as inquietações sobre o papel da mulher na sociedade, as experiências pessoais, tudo começou a pedir papel e caneta.
Foi assim que nasceu Vértice: Jornada Feminina.
O título carrega força. Vértice é o ponto de encontro entre duas linhas. É o ápice. É o momento de decidir. E é exatamente isso que a obra propõe: refletir sobre os momentos decisivos na trajetória das mulheres.
A jornada feminina, como ela mesma destaca, não é reta. É feita de curvas, desafios, lutas e conquistas. E mesmo quando se chega ao topo, novos caminhos se apresentam. O vértice, então, deixa de ser fim e se torna recomeço.
O cartório também ensina
A vivência como oficiala influencia, e muito, sua escrita. No dia a dia, Suellen acompanha histórias reais, especialmente nos processos de habilitação para o casamento.
As conversas sobre mudança de sobrenome, as negociações silenciosas, os pedidos, as exigências. Homens que exigem. Mulheres que pedem para incluir seus sobrenomes. Decisões que parecem simples, mas carregam simbolismos profundos sobre identidade e pertencimento.
Essas experiências reforçaram nela a importância de falar sobre autonomia, escolha e protagonismo feminino.
Uma mensagem que ecoa
Ao olhar para outras mulheres, especialmente aquelas que ainda não se sentem protagonistas da própria história, Suellen deixa uma mensagem direta e cheia de coragem:
“O poder está em reconhecer a sua própria identidade, seus desejos e ideais. Muitas vezes, a sociedade tenta nos colocar em moldes que não condizem com quem realmente somos. Mas a verdadeira força está em entender que podemos ser protagonistas da nossa história, independentemente das dificuldades. A jornada pode ser longa, mas cada passo dado em direção ao autoconhecimento e à coragem é um passo importante. E nunca é tarde para reescrever a sua história.”
O Recivil Cultural recomeça assim. Com vinho, livros, coragem e uma oficiala que decidiu escrever e viver o próprio vértice.
