O nascimento de um dos maiores cartunistas do Brasil revela como o registro civil transmuta vidas em memória e inscreve histórias individuais na tapeçaria de um território em formação.
A vida de Henrique de Souza Filho floresce em um solo que, à época, ainda buscava reconhecer-se como cidade. Em Ribeirão das Neves, no dia 5 de fevereiro de 1944, nasce o “Henriquinho”, amparado pelas mãos do médico Dr. Ari Teixeira da Costa, clínico da penitenciária local. Em meio a uma realidade desenhada por fazendas, pela colônia penal agrícola e por uma estrutura social em gestação, surge aquele que se tornaria uma das penas mais afiadas e essenciais do Brasil.
Filho de Henrique José de Souza, almoxarife da Penitenciária Agrícola de Neves, e de Maria da Conceição Figueiredo Souza, foi registrado no dia 14 de fevereiro do mesmo ano, no distrito de Ribeirão das Neves, então pertencente à comarca de Pedro Leopoldo. Seu registro civil, preservado no livro 7º do Cartório de Pessoas Naturais da cidade, permanece como um documento fundamental, não apenas de sua existência, mas da própria alma local.
A infância se desenrola na Vila Esplanada, onde a família ocupava a casa 21 de um conjunto de 33 residências destinadas aos funcionários do complexo penitenciário. Nesse microcosmo de convivência intensa e cotidiano simples, consolidou-se uma família numerosa: Henrique era o sexto de oito irmãos, entre eles o sociólogo Betinho. A permanência na cidade, entre 1938 e 1944, antecede a partida para Belo Horizonte, mas deixa marcas indeléveis em sua trajetória.
Há, nesse contexto, um simbolismo que reforça a singularidade de sua origem: foi o único dos irmãos a nascer pelas mãos de um médico. Ainda assim, coube ao rito do Cartório eternizar oficialmente aquele sopro de vida, transformando um evento íntimo em memória coletiva. Para o filho de Henfil, Ivan Cosenza de Souza, essa gênese é parte essencial de sua identidade: “Meu avô morou na vila penitenciária… essa identificação é muito bacana, porque mostra a história da sua origem”.
O documento que guarda a essência de um gênio
Décadas depois, o cartório que acolheu aquele nascimento segue como guardião dessa relíquia. A oficiala do Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais de Ribeirão das Neves, Elizabeth Dias, ressalta o valor histórico do documento:
“Nossos livros guardam um pedaço fundamental da história cultural do Brasil. O registro de nascimento nº 1784 confirma que Henrique de Souza Filho nasceu aqui, em Ribeirão das Neves, no dia 5 de fevereiro de 1944. Ele era filho de Henrique de Souza e Maria da Conceição Souza. É um documento simples em sua forma, mas grandioso no que representa: a certidão de nascimento de um gênio que usou o traço para mudar o país.”
Mais do que um protocolo formal, o documento atravessa o tempo como testemunho de uma história que segue despertando fascínio e novas interpretações. “Com certeza Henfil é uma figura eterna. É gratificante ver como um documento feito há 80 anos ainda pulsa e gera novas descobertas”, comenta Dias.
Memória, identidade e permanência
Consagrado por seu humor crítico e por sua andança por metrópoles como Rio de Janeiro, São Paulo, Natal e até Nova Iorque, Henfil manteve sua bússola ancorada nesse ponto de partida. Sua jornada foi interrompida em 1988, aos 43 anos, mas é justamente no retorno a essa origem que o papel do Registro Civil ganha contornos de imortalidade.
Foi por meio desses pergaminhos modernos que Ivan pôde resgatar fragmentos dessa história, reafirmando o Cartório como sentinela da memória. Ele destaca a relevância desse processo, especialmente diante das narrativas lúdicas que o pai costumava tecer em entrevistas: “Eu não tinha a certidão de óbito dele comigo. Foi preciso fazer um pedido que demorou meses para restaurar a página e resgatar o documento. Agora tenho um original”.
Para Ivan, o ofício dos registradores ultrapassa a frieza burocrática: “Ali está guardada a história de uma região, de uma família, de um indivíduo”.
A trajetória do artista e a de Ribeirão das Neves se entrelaçam. Primeiro, pela experiência vivida na infância de uma comunidade em formação; depois, pelo lastro documental que preserva esses passos no tempo. Enquanto a cidade crescia e buscava sua identidade, muitas vezes sob o peso do estigma prisional, o Cartório registrava vidas que, futuramente, ajudariam a ressignificar o território.
Nesse movimento, o ontem e o amanhã se abraçam. Ivan expressa o desejo de transformar essa herança em reconhecimento público: “A gente tinha o projeto de transformar em um museu a casa onde ele morou e fazer de Ribeirão das Neves a cidade do Henfil”. Para ele, tanto o Registro Civil quanto a obra do pai são escudos contra o esquecimento.
“Reforçar a importância do registro civil, portanto, é reconhecer que grandes trajetórias começam em gestos institucionais aparentemente simples. Sem registro, não há prova de existência; sem prova, não há cidadania plena e, sem cidadania, a memória se fragiliza”, frisa Ivan.
O registro de Henfil é ponto de partida e porto de permanência. Revela que, sob a tinta de cada certidão, repousa uma história em potência. No Cartório das Pessoas Naturais de Ribeirão das Neves, preservar tais papéis é afirmar o direito à memória e abrir veredas para que outras vidas, ainda em construção, não se percam no vácuo do tempo.
O traço que redesenhou o Brasil
A força de Henfil não se limita à sua raiz; ela se expande em uma obra que interpretou e desafiou o Brasil. Criador de figuras icônicas como os fradinhos Baixim e Cumprido, a Graúna e o bode Orelana, ele converteu o humor em instrumento de resistência política, especialmente sob a sombra da ditadura militar.
Sua arte pulsou em veículos como O Pasquim e em obras como “Hiroshima, meu humor” e “Diário de um Cucaracha”. Em cada linha, Henfil mesclava irreverência e engajamento, consolidando uma gramática visual única.
Assim como seu registro civil guarda o início de sua narrativa, sua obra permanece viva, atravessando gerações e reafirmando o humor como forma de identidade e transformação social. Em sua Ribeirão das Neves natal, esse legado se materializa: o município preserva registros que alimentam a educação patrimonial, aproximando novos olhares da trajetória daquele que, antes do primeiro traço no papel, foi devidamente inscrito na história pelos livros do cartório.
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