Mais de cem anos depois do nascimento do escritor, sua certidão de nascimento continua sendo consultada por pesquisadores e estudantes. O caso ajuda a mostrar como o Registro Civil se transforma, com o tempo, em guardião da memória de uma cidade.

 

Antes de se tornar um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, Carlos Drummond de Andrade teve seu nascimento registrado em Itabira, como determina a lei para todo cidadão. Em 31 de outubro de 1902, em Itabira do Mato Dentro, o nascimento de Carlos Andrade foi lançado nos livros do Registro Civil. Mais de um século depois, aquele documento permanece preservado no acervo do cartório e ganhou uma dimensão que ultrapassa sua função jurídica: tornou-se parte da documentação que ajuda a contar a história de um dos grandes poetas brasileiros.

Hoje, a certidão de nascimento de Drummond integra o acervo do Registro Civil das Pessoas Naturais de Itabira e continua sendo procurada por pesquisadores, estudantes, historiadores e instituições que estudam a vida e a obra do escritor. Segundo a oficial do cartório, Edna Aparecida Fagundes Marques, os pedidos são realizados principalmente de forma eletrônica, por meio da Central de Registro Civil (CRC), e muitas vezes estão relacionados a pesquisas e trabalhos sobre o poeta.

“O registro civil é um ato grandioso mesmo. Porque você guarda a história dele, onde está aquele ‘aqui nasceu um menino’, e foi registrado naquele livro. Então, no dia tal, o pai compareceu, registrou Carlos de Andrade, filho de fulano. É uma história de vida, é o primeiro registro do cidadão brasileiro”, explica Edna Aparecida.

A fala da oficiala ajuda a compreender uma dimensão que nem sempre é percebida no cotidiano dos cartórios. O Registro Civil documenta acontecimentos fundamentais da vida das pessoas, como nascimento, casamento e óbito, e esses documentos, com o passar do tempo, também podem se transformar em fontes para a reconstrução da história de famílias, comunidades e cidades.

No caso de Drummond, essa relação é particularmente significativa. O poeta nasceu em Itabira e levou a cidade consigo ao longo de sua trajetória literária. O Instituto Moreira Salles, que mantém parte de seu acervo, destaca a presença de Itabira em sua trajetória e na chamada “geografia pessoal” de sua obra.

A cidade não aparece apenas como cenário na produção do escritor. Ela se transforma em memória, paisagem, experiência e matéria poética. Em sua obra, as montanhas, a família, a infância e a própria condição de ser mineiro são elementos recorrentes. É o caso de “Confidência do Itabirano”, poema em que Drummond transforma a relação com sua cidade natal em reflexão sobre identidade e pertencimento.

É também nesse diálogo entre indivíduo e lugar que se pode compreender a dimensão do documento preservado pelo Registro Civil. O livro do cartório registra o nascimento de uma pessoa. A literatura, anos depois, registra a maneira como essa pessoa enxergou o mundo e o lugar de onde veio.

Do livro do cartório para a literatura

A trajetória de Drummond também evidencia a importância do registro civil como um documento que preserva a identidade e a história de uma pessoa e que, ao longo do tempo, pode adquirir novos significados. Nascido em Itabira, em 1902, o escritor estreou em livro em 1930, com ‘Alguma poesia’. Ao longo das décadas seguintes, publicou uma obra extensa, que inclui títulos como Sentimento do mundo, A rosa do povo, Claro enigma e Boitempo. A Academia Brasileira de Letras registra a amplitude de sua produção poética e sua trajetória como um dos grandes nomes da literatura brasileira.

Em muitos de seus textos, a experiência particular se mistura à experiência coletiva. O menino de Itabira se transforma no poeta que fala sobre o cotidiano, a família, a passagem do tempo, as relações humanas e as questões de seu país. A crítica literária também reconhece na obra de Drummond a presença de sua experiência pessoal e de sua relação com Minas Gerais.

Essa dimensão torna ainda mais simbólico o fato de o primeiro documento oficial de sua vida permanecer em Itabira. Para Edna Aparecida, a importância do registro está justamente nessa possibilidade de conectar documento, pessoa e memória.

“Juridicamente, está ali também para poder provar fatos. Cultural e historicamente, por causa disso mesmo, porque aqui registra-se a história dele. Nasceu um menino e daqui ele brilhou, daqui ele saiu do meio dessas montanhas e dessas… onde ele relata tanta coisa”, afirma.

A expressão usada pela oficiala, “daqui ele brilhou”, sintetiza uma trajetória que a própria obra de Drummond ajudou a tornar conhecida. Embora tenha vivido grande parte da vida fora de Itabira, o poeta não rompeu literariamente com sua cidade natal. Ao contrário: a cidade permaneceu como referência afetiva e poética.

Uma certidão que continua contando histórias

O interesse pelo registro de Drummond não se limita a admiradores da literatura. De acordo com Edna, estudantes de História e Letras, pesquisadores e historiadores recorrem ao cartório para obter certidões e informações que ajudam a fundamentar estudos e trabalhos sobre o escritor.

A oficial conta que o cartório também realiza buscas históricas em outros registros. Quando uma informação não é localizada imediatamente nos sistemas eletrônicos, a equipe recorre aos livros e aos índices do acervo. Em determinados casos, a pesquisa envolve cruzar informações de pais, mães e avós até localizar a pessoa procurada.

Esse trabalho revela outra característica do Registro Civil: os livros não guardam apenas informações administrativas. Eles formam um acervo documental que permite recuperar trajetórias individuais e, por meio delas, aspectos da história de uma sociedade.

“O Registro Civil não registra apenas fatos da vida. Registra a existência das pessoas e, consequentemente, constrói a memória da sociedade”, resume Edna.

A frase ganha um significado especial quando aplicada ao registro de Drummond. Aquele nascimento, registrado em Itabira no início do século XX, hoje ajuda a estabelecer documentalmente a origem de um escritor cuja obra ultrapassou as fronteiras de sua cidade e de seu país.

Entre a memória e o futuro

Preservar esse documento também faz parte do trabalho cotidiano do cartório. Edna conta que, desde que assumiu a serventia, em 2010, uma das prioridades foi recuperar, organizar e conservar o acervo. Livros foram restaurados e reencadernados, os procedimentos de armazenamento foram aprimorados e os registros foram digitalizados para facilitar o acesso e reduzir o manuseio dos documentos físicos.

O cuidado com os livros tem uma razão prática, mas também carrega uma dimensão histórica.

“Hoje a gente está aqui, mas amanhã vão chegar pessoas que precisam pegar esse acervo, precisam buscar o que está aqui de maneira clara. Tem que conservar, tem que trazer tudo que tiver aqui”, afirma a oficiala.

A preocupação dialoga diretamente com o sentido da memória presente na obra de Drummond. Em seus poemas, recordar não significa simplesmente voltar ao passado. A memória é uma maneira de compreender quem somos, de onde viemos e como o tempo transforma pessoas e lugares.

É possível enxergar essa relação até mesmo no contraste entre o documento e a literatura. No livro do Registro Civil, está o nascimento de Carlos Andrade. Na obra de Drummond, está o homem que, décadas depois, transformou lembranças, paisagens e experiências em poesia.

O documento registra o começo. A literatura registra o que esse começo significou.

A memória também ganha forma na escrita

A relação de Edna com a escrita cria outro ponto de contato com a história de Drummond. Oficiala do Registro Civil de Itabira, ela também é autora de livros e conta que a escrita faz parte de sua trajetória há muitos anos. Cresceu em uma família ligada ao cartório e, desde a infância, esteve próxima dos livros e da poesia. Segundo ela, a mãe costumava escrever versos para os aniversários da família, experiência que contribuiu para sua aproximação com a linguagem poética.

Em Itabira, Edna passou a estudar mais sobre poesia e a escrever com maior frequência. Em 2022, publicou Filho de Maria, seu primeiro livro. A obra nasceu como uma homenagem à mãe e reúne também memórias de sua trajetória, dos lugares onde viveu e trabalhou e de sua experiência no Registro Civil. Entre os textos, há poemas relacionados à atividade de registradora civil e às relações familiares. Em maio de 2026, lançou Tudo em ti me sustenta, uma obra voltada a reflexões sobre Deus, a natureza e aspectos da vida cotidiana.

A escrita também aponta para novos projetos. Edna conta que pretende transformar algumas de suas poesias em livros para crianças, com ilustrações e conteúdos relacionados ao cuidado com a natureza e ao bem-estar. A proposta ainda está em estruturação e prevê materiais que possam aproximar a poesia do público infantil.

A presença da literatura na trajetória da oficiala cria uma relação particular com a história que o próprio cartório preserva. De um lado, os livros do Registro Civil guardam documentos sobre a vida de pessoas que passaram por Itabira. De outro, a escrita permite que experiências, lembranças e sentimentos sejam transformados em palavras e permaneçam acessíveis a outros leitores.

Um registro de Itabira para o mundo

A presença do documento de Drummond no Registro Civil também reforça a relação entre a serventia e a identidade da própria cidade. Itabira é conhecida nacionalmente pela mineração, mas também ocupa um lugar singular no imaginário literário brasileiro por ser a cidade natal de Drummond e estar profundamente relacionada à sua obra.

Para Edna, essa relação é percebida diariamente.

“Se falar Itabira, todo mundo já lembra dele. Fala assim: ‘Ah, Itabira’. Lembra da mineração, mas também se identifica com ele. É um orgulho também para a cidade, um orgulho grande”, afirma.

Nas escolas, nos espaços culturais, nas ruas e nos estudos acadêmicos, Drummond continua sendo apresentado às novas gerações. E, dentro do Registro Civil, existe uma espécie de ponto inicial dessa história: um documento que atesta que, naquele lugar, em 1902, nasceu um menino que mais tarde transformaria Itabira em matéria de poesia.

A história de Carlos Drummond de Andrade, portanto, pode ser lida por diferentes caminhos. Está nos livros, nos poemas, nos arquivos, nas fotografias, na memória dos itabiranos e nos espaços dedicados ao poeta. Mas também está no Registro Civil de Itabira, onde seu nascimento foi oficialmente registrado em 1902. Mais de um século depois, esse documento permanece como parte da história do escritor e da memória documental da cidade onde ele nasceu.