Em processo de beatificação, Floripes Dornellas de Jesus, conhecida como Lola, tem sua trajetória documentada em registros civis que ajudam a preservar a memória de sua vida.

 

Em Rio Pomba, no interior de Minas Gerais, a história de Floripes Dornellas de Jesus atravessa gerações. Conhecida como Lola e chamada de Santa Lola por seus devotos, ela se tornou uma figura de devoção na região. Reconhecida pela Igreja Católica como Serva de Deus, Floripes é objeto de uma causa de beatificação que permanece em andamento.

Muito antes de sua trajetória ganhar dimensão religiosa, a vida de Floripes já estava registrada nos livros do Registro Civil. Seu nascimento foi documentado em 1931 e, décadas depois, sua morte também foi registrada. Entre essas duas páginas está parte da história documental de uma mulher cuja memória ultrapassou os limites de sua cidade.

Uma vida registrada

Floripes nasceu em 27 de junho de 1911, em Mercês, município vizinho a Rio Pomba. Seu nascimento, porém, foi registrado posteriormente no Ofício de Registro Civil das Pessoas Naturais da Cidade de Rio Pomba. O assento foi lavrado em 16 de abril de 1931, no Livro 20-A.

Segundo Ana Carolina Rico, oficiala do Cartório de Registro Civil de Rio Pomba desde 2011, uma possível explicação para o registro ter sido feito no município está na organização judiciária da época, quando Mercês integrava a comarca de Rio Pomba. A oficiala ressalta, porém, que seria necessária uma pesquisa histórica específica para confirmar as circunstâncias desse registro.

O registro de sua morte foi lavrado em 13 de abril de 1999, no Livro 24-C. Assim, nascimento e óbito de Lola permanecem documentados no mesmo cartório.

“Eu acho que o registro confirma realmente que a Lola esteve ali, que esteve presente. A gente teve esse privilégio de ter o registro dela, tanto o de nascimento quanto o de óbito. Então, a gente tem os dois registros.”

Para Ana Carolina, esses documentos ganham um significado especial por estarem relacionados a uma pessoa cuja história passou a fazer parte da memória religiosa de Rio Pomba.

O acervo do cartório, iniciado em 1889, reúne registros de gerações de moradores. Entre eles estão os de Lola, que décadas depois passaram a ser procurados também por pessoas interessadas em conhecer sua trajetória.

Quando o documento encontra a memória

A consulta a registros antigos faz parte do cotidiano do cartório. Pessoas procuram informações sobre pais, avós e bisavós, reconstroem árvores genealógicas, pesquisam a origem da família ou precisam localizar documentos para processos de cidadania.

Nessas situações, uma informação registrada há décadas pode adquirir um significado pessoal.

“Para mim, é uma das atribuições mais interessantes, especialmente porque a gente tem esse viés muito histórico das coisas, de conhecer realmente as famílias’, conta Ana Carolina.

Esse vínculo com a história familiar aparece também quando o interessado tem acesso à reprodução do documento original. A cópia reprográfica permite visualizar a escrita e a assinatura de quem esteve diante do livro décadas atrás.

“Com as certidões de inteiro teor e cópia reprográfica, as pessoas conseguem ver a letra do avô, como ele assinou o registro. Então é bem interessante. As pessoas ficam realmente emocionadas às vezes de saber que o avô esteve lá, que fez o registro, que realmente assinou o livro”, explica a oficiala.

No caso de Lola, a consulta aos registros ganha uma dimensão particular. Para seus devotos, encontrar seu nome, sua filiação, a data de nascimento ou o registro de sua morte significa localizar, em um documento oficial, referências concretas sobre a mulher que ocupa um lugar especial em sua devoção.

O documento como testemunho

Os registros civis não explicam a fé dos devotos nem têm a função de comprovar relatos religiosos. Sua finalidade é documentar oficialmente fatos da vida civil.

Essa distinção é importante na história de Lola. Sua trajetória é cercada por relatos de milagres, curas e outros acontecimentos atribuídos a ela por seus devotos. Ao mesmo tempo, sua causa de beatificação está em andamento junto à Igreja Católica. A reportagem procurou a diocese responsável pelo processo para obter informações atualizadas sobre seu andamento, mas não houve retorno até a publicação deste texto.

Os documentos preservados em Rio Pomba oferecem, nesse contexto, uma referência objetiva sobre sua existência: Floripes Dornellas de Jesus nasceu, teve sua vida civil registrada e morreu em Minas Gerais.

O restante de sua história é construído a partir de outras fontes e perspectivas: relatos de pessoas que conviveram com ela, testemunhos de devotos, pesquisas e documentos relacionados à causa de beatificação. É desse conjunto que emerge a personagem conhecida hoje como Lola.

Uma história que continua sendo contada

Segundo relatos reunidos sobre sua vida, Floripes teria sofrido um acidente na juventude que lhe deixou graves limitações físicas. A partir de então, sua religiosidade teria se intensificado, e ela passou a ser procurada por pessoas que atribuíam à sua vida um significado de fé.

Com o tempo, esses relatos contribuíram para a formação da devoção conhecida hoje em torno de Lola. Em 2005, foi autorizado o início de sua causa de beatificação, e Floripes passou a ser reconhecida oficialmente pela Igreja como Serva de Deus.

A causa permanece em andamento. Qualquer eventual beatificação depende, portanto, das etapas e decisões próprias do processo conduzido pela Igreja.

Sua trajetória também despertou interesse em razão de relatos de que teria passado um período sem se alimentar de maneira convencional. O episódio integra os relatos que cercam sua vida e sua trajetória de devoção.

São diferentes olhares sobre uma mesma vida. A devoção popular atribui significados religiosos à trajetória de Lola; a Igreja conduz sua investigação dentro do processo de beatificação; pesquisadores podem examinar aspectos específicos de sua história; e os registros civis documentam acontecimentos fundamentais de sua existência.

Uma história preservada em livros

Os livros antigos de Rio Pomba continuam sendo consultados por quem procura informações sobre pessoas e famílias que passaram pelo município ao longo das décadas.

Ana Carolina conta que essa dimensão histórica é uma das características que mais a aproximam da atividade.

“Quando a pessoa chega no cartório e vê que a gente consegue ter a origem dela, árvores genealógicas, o pai, o avô, o tio, e ela descobre que realmente está tudo guardado, isso é interessante.”

Os documentos também carregam marcas do tempo. Nos registros mais antigos, a grafia, a caligrafia e as formas de escrever os nomes revelam mudanças na linguagem e nos costumes.

Por isso, cada pesquisa exige atenção. É preciso interpretar uma escrita antiga, localizar um nome ou identificar uma informação registrada décadas atrás.

No caso de Lola, essa busca encontra duas referências especialmente significativas: o registro de nascimento, lavrado em 1931, e o registro de óbito, de 1999.

“É a minha paz”

Depois de trabalhar também com outras atribuições extrajudiciais, Ana Carolina encontrou no Registro Civil uma identificação particular com a atividade.

“Eu costumo dizer que é a minha paz. Ser oficial de registro civil é a minha paz.”

A frase resume uma relação construída ao longo de anos com uma atividade que acompanha as pessoas em momentos fundamentais de suas trajetórias.

“Podem ser momentos especiais bons e ruins também, mas a gente está sempre ali.”

Essa proximidade com a vida das pessoas ajuda a explicar por que documentos aparentemente simples podem adquirir novos significados com o passar do tempo.

No caso de Lola, duas páginas de um acervo iniciado em Rio Pomba em 1889 registram acontecimentos fundamentais de sua vida: seu nascimento e seu óbito.

Entre essas duas páginas está a trajetória de uma mulher que se tornou parte da memória religiosa de Rio Pomba e cuja causa de beatificação continua em andamento.

Para seus devotos, Lola permanece como uma figura de fé. Para a Igreja, sua história segue sendo examinada. Para quem pesquisa sua vida, os documentos preservados em Rio Pomba oferecem um ponto de partida.

E, para o Registro Civil, permanecem duas páginas que ajudam a contar a história de Floripes Dornellas de Jesus.